sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

A fruta do milagre

Pequenos bagos vermelhos semelhantes a cerejas de formato alongado tornaram-se um fenómeno de culto principalmente em Nova Iorque e São Francisco. A procura de experiências intensas leva cada vez mais gente a acabar a noite nas chamadas «fruit trips», a explorar sabores surpreendentes. A fruta do milagre (Synsepalum dulcificum) tem a capacidade de anular a acidez dos alimentos, por isso mesmo um intragável limão pode ser comido sem desprazer. Não é fácil encontrá-la na sua versão fresca, mas a polpa congelada ou os comprimidos feitos a partir dos bagos desidratados garantem o mesmo efeito.

O arbusto nativo da África Ocidental foi pela primeira vez descrito no início do século XVIII. Os exploradores ficaram curiosos com esta iguaria obrigatória para muitas tribos antes de cada refeição. A fruta tem uma glicoproteína chamada miraculina que bloqueia as papilas gustativas receptoras do sabor ácido, daí que os alimentos consumidos a seguir, por mais amargos que sejam, se tornam muito doces. A experiência transformadora terá inspirado o nome por que foi divulgada e que ajudará a angariar adeptos para o dito “milagre”.

Na Internet, não faltam entusiastas. Há blogues a partilhar sensações, dicas para se conseguir cultivar em vaso - só exequível em ambientes quentes e húmidos - e, claro, comércio. Na Europa, o país que parece mais desperto é o Reino Unido, a avaliar pelos sítios que vendem não só para consumo interno mas para qualquer país através dos correios (por exemplo em: miracleuk.info). É preciso saber esperar, porque a procura é grande e a encomenda feita pelo Expresso demora algumas semanas a ser satisfeita. O preço começa em sete euros por apenas dois gramas (acrescem os portes) e, até há pouco tempo, só era possível experimentar a versão congelada ou em comprimidos. Mas, desde 17 de Julho os britânicos podem comprar os bagos frescos, anuncia o www.miraclefruit.co.uk.

Dado o potencial interesse para a gastronomia, perguntámos a três chefes de cozinha se conheciam os efeitos destes bagos vermelhos. Luís Baena provou uma vez em San Sebastian e ficou curioso. “Há um lado recreativo neste tipo de experiências. Cada vez mais o que se procura em muitos restaurantes é um jogo de emoções e este fruto pode ser muito curioso por isso.” Também José Avillez e Henrique Sá Pessoa, apesar de não terem experimentado, partilham da opinião do colega de profissão: “Pode ser um caminho interessante. Na cozinha procuramos muito sensações diferentes”, diz Avillez. Sá Pessoa, que confessou nunca ter ouvido falar do alimento, ficou curioso por poder suscitar “novas experiências associada a outros sabores”.

Há quem veja um enorme potencial para tornar esta fruta num adoçante natural sem as contra-indicações do açúcar, mas a primeira tentativa, que data de 1974 não vingou. A Food and Drugs Administration, agência norte-americana responsável pela regulamentação dos medicamentos e alimentos, opôs-se à sua aprovação, exigindo mais anos de testes. A empresa não teve dinheiro para prosseguir e a fruta tornou-se um fenómeno de culto de minorias. Actualmente, uma nova empresa norte-americana, a BioResources International, está interessada em encontrar na fruta do milagre uma alternativa ao açúcar.

Fonte: Expresso, 19 de Julho de 08

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